24 junho 2016

Feche a gaveta - Comportamento disfuncional

postado por Cottage Regressiva


Hoje eu acordei de madrugada por um simples motivo: estava morrendo de medo da porta do guarda-roupa que estava entreaberta. As portas são de correr e de vez em quando você empurra e elas passam do ponto deixando aquela fresta tenebrosa. Gente, quando eu era criança, minha avó sempre dizia que não podíamos de jeito nenhum deixar portas e gavetas abertas, pois isso chamava defuntos para dentro de casa. E quem disse que hoje, adulta, sem ver qualquer lógica nisso, eu consigo me desvencilhar desse medo? Claro que se ela repetia isso é porque ela aprendeu com alguém e de certa forma isso nos fazia manter tudo em ordem, mas de vez em quando me pego gritando pro marido: deixou a gaveta meio aberta por qual motivo, quer chamar defunto, é?

Os comportamentos disfuncionais são aqueles que não tem mais a menor razão de ser, mas que mesmo inconscientemente trazemos para vida adulta, muitas das vezes, causando uma série de prejuízos. Eu podia ter virado pro lado e dormido, mas enquanto não fui lá fechar a dita cuja não consegui relaxar. O mesmo acontece com nossos hábitos de recompensa, com nossos hábitos em relação à alimentação, atividade física, etc... 

Aos 10 anos e já extremamente obesa, minha mãe me matriculou na natação. Eu odiava. Não gostava do maiô - gostei menos ainda da saga para procurar o maiô, não gostava de acordar cedo, do cheiro da piscina, das crianças gritando animadas e das várias competições dentro d'água. Na saída, minha avó imprimiu uma leve rotina. Íamos ao mercado, que ficava ao lado do clube e ela me deixava escolher qualquer doce da vitrine. Lembro de um quindim que fatiavam feito torta, em triângulo, e ainda vinha com granulados coloridos. Eu o comia TODAS as vezes que saÍa da piscina, sendo que ainda almoçaria para ir para a escola - minha avó jamais me deixava sem fazer essa refeição. Para mim, virou com toda certeza, uma forma de recompensa daquela atividade que eu considerava um martírio. Evidente que o resultado na balança era quase nulo e minha mãe acabou me tirando da atividade sem entender nada.

Hoje, adulta, responsável pelos meus atos, consciente da necessidade de uma vida saudável, ainda trago essa sensação de que na frustração... um doce. Levei anos na terapia e, de repente, a psicóloga pôde juntar os caquinhos chegando ao fato do comportamento disfuncional. Aquilo funcionava na infância, porque o poder questionador era quase zero, não tinha idade para julgar muito bem o certo e o errado, não tinha nem consciência de que obesidade era um mal, não sabia como lidar com meus sentimentos, não tinha voz ou válvula de escape ou consciência do bem de uma atividade física, então, aceitei ir por esse caminho da recompensa fácil que anulava os esforços duros. E trouxe para vida. Agora sei que não tem lógica continuar com esse padrão que só me causa prejuízos. E te pergunto: o que você também traz inconscientemente e que já não lhe traz qualquer benefício? Tudo pode e deve ser mudado se as perdas são maiores do que os ganhos. 


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